O barreado é um prato símbolo do litoral paranaense, notadamente das cidades de Morretes, Antonina e Paranaguá. Sua origem remonta ao período colonial brasileiro, por volta dos séculos XVIII e XIX, quando tropeiros vindos do interior do Brasil em direção ao litoral faziam longas paradas nestas cidades para descanso e abastecimento. Sob a necessidade de uma alimentação farta, nutritiva e capaz de ser preparada para muitos viajantes, desenvolveu-se o barreado: uma receita caracterizada por seu modo de cozimento prolongado, em que carnes bovinas são cozidas lentamente e seladas em panelas de barro. Esta técnica garantia que o alimento se conservasse por mais tempo, ideal para regiões úmidas e tropicais e para grupos numerosos.
As raízes culturais do barreado misturam tradições indígenas e portuguesas. Estudos apontam para a influência das “cozidas” indígenas, onde a carne era fervida lentamente na panela de barro, e elementos culturais trazidos pelos colonizadores portugueses, notadamente o uso de temperos como cominho, louro e pimenta, bem como a prática do vedamento da panela com uma mistura de farinha, água e cinzas — de onde vem o nome “barreado”. Embora a receita possa ter sofrido pequenas alterações ao longo do tempo, seu preparo ainda hoje mantém tradições centenárias, sendo um dos poucos pratos festivos que resistiram intactos à passagem do tempo.
Há ainda controvérsias sobre o surgimento exato do prato. Algumas fontes sugerem que teria sido derivado das festas de entrudo portuguesas, antecedendo o Carnaval, momento de celebração nas comunidades do litoral paranaense e de reunião familiar. Outros historiadores acreditam que o prato nasceu apenas do cotidiano dos tropeiros, sendo, na verdade, uma comida de subsistência, adaptada posteriormente à mesa dos festejos. Apesar dessas divergências, há consenso de que o barreado se consolidou na cultura alimentar do Paraná, sendo transmitido de geração em geração, especialmente entre moradores do litoral.
O barreado ganhou destaque nacional a partir do século XX, com o fortalecimento do turismo gastronômico nas cidades históricas do Paraná. Restaurantes especializados passaram a atrair visitantes de todo o Brasil, especialmente depois da inauguração da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, em 1885, e do posterior desenvolvimento rodoviário da região. O prato passou então a ser visto como um patrimônio cultural paranaense, essencial para a identidade local e para a economia desses municípios.
Hoje, o barreado é reconhecido como um dos pratos mais emblemáticos da culinária brasileira regional. Sua importância histórica, social e cultural é celebrada em festivais, publicações e pesquisas acadêmicas. O prato é tradicionalmente servido em festas populares, eventos turísticos e encontros familiares, preservando seu modo de preparo lento e cuidadoso, que atravessou séculos. Desta forma, o barreado permanece não só como uma iguaria, mas como uma parte viva do patrimônio imaterial do Paraná.
Ingredientes:
- 2 kg de carne bovina (acém, peito ou músculo, cortados em pedaços grandes)
- 200 g de toucinho fresco (sem pele, em pedaços)
- 4 cebolas grandes picadas
- 4 dentes de alho picados
- 2 folhas de louro
- 1 colher de sopa de cominho
- 1 colher de sopa de pimenta-do-reino moída
- Sal a gosto
- Água o suficiente para cobrir as carnes
- Farinha de mandioca (para vedar a panela)
Modo de preparo:
- Coloque a carne e o toucinho em uma panela de barro grande, intercalando camadas com a cebola, o alho, o louro, o cominho, a pimenta e o sal.
- Acrescente água até cobrir todos os ingredientes.
- Tampe a panela e sele a borda da tampa utilizando uma mistura de farinha de mandioca com um pouco de água, formando uma massa espessa (comum vedar também com cinzas, conforme tradição). Esse “barreamento” evita que o vapor escape.
- Leve ao fogo brando (idealmente em fogão a lenha) e cozinhe por cerca de 12 a 20 horas, sem abrir a panela, até que a carne desmanche completamente.
- Após o cozimento, retire a vedação e abra a panela somente na hora de servir. Mexa bem para que as fibras da carne se misturem ao caldo e sirva quente, normalmente acompanhado de arroz branco, banana e farinha de mandioca.
Tempo total: 12 a 20 horas
Referências:
- “História da Alimentação no Brasil”, Câmara Cascudo, Luís da, 2001.
- “Barreado: Patrimônio Gastronômico Paranaense”, Zilda Paim e Salete Lemos, Instituto Emater (IDR-Paraná), 2003.
- “O Livro da Cozinha Brasileira”, Raul Lody, 2017.
- Artigo “Barreado: tradição e sabor do litoral do Paraná”, Governo do Estado do Paraná, 2017. [https://www.aen.pr.gov.br/Noticia/Barreado-tradicao-e-sabor-do-litoral-do-Parana]
- “Enciclopédia da Gastronomia Paranaense”, Secretaria da Cultura do Estado do Paraná, 2013.
