História do prato: O arroz com pequi é um dos mais tradicionais ícones da cozinha da região do Cerrado brasileiro, especialmente dos estados de Goiás, Minas Gerais e partes do Tocantins e Mato Grosso. Sua história está fortemente ligada à presença do fruto do pequi (Caryocar brasiliense) nas matas nativas dessa vasta região, onde é conhecido como “ouro do Cerrado” devido ao aroma singular, sabor marcante e cor amarela intensa. Este fruto era largamente utilizado muito antes da colonização europeia: indígenas que habitavam o Cerrado já consumiam pequi em diversas formas, tanto cru quanto cozido em receitas salgadas.
Com a chegada dos bandeirantes e a ocupação do interior do Brasil pelos colonizadores portugueses, por volta do século XVIII, o pequi foi incorporado à alimentação dos sertanejos. Surgiu então o costume de misturá-lo ao arroz, ingrediente fundamental na dieta dos colonos, devido à sua acessibilidade, rendimento e capacidade de sustentar longas jornadas de trabalho no campo. O arroz com pequi passou a ser preparado em grandes tachos ou panelas de ferro, recebendo outros temperos rústicos típicos do Cerrado, como alho, cebola e gordura animal, frequentemente acompanhados de carne de sol ou frango caipira.
Entre os principais pontos de controvérsia em torno desse prato está o próprio pequi, um fruto de cheiro forte e sabor tão exótico que provocou resistência entre forasteiros e turistas ao longo do tempo. Para muitos, o aroma do pequi pode ser inicialmente desagradável, mas, para os habitantes locais, trata-se de um verdadeiro deleite culinário, símbolo de identidade regional. Outra controvérsia envolve a maneira correta de consumir o fruto, já que dentro da polpa encontra-se uma semente com pequenas espinhas duríssimas, capaz de machucar quem tenta mordê-la sem cuidado – por isso, tradicionalmente, ensina-se a “roer” suavemente o pequi, extraindo a polpa por entre os dentes.
A popularização do arroz com pequi se deu principalmente através de festas tradicionais, feiras gastronômicas e do movimento migratório interno brasileiro, que levou famílias goianas e mineiras para centros urbanos maiores. Nessas cidades, restaurantes especializados e encontros festivos buscaram perpetuar o sabor do Cerrado e resgatar memórias afetivas ligadas à terra natal. Com o passar das décadas, o prato se consolidou como referência cultural, sendo atualmente protegido em algumas iniciativas de preservação do patrimônio imaterial, sobretudo para valorizar a biodiversidade do Cerrado e suas tradições alimentares.
Na contemporaneidade, diante das ameaças à sobrevivência do bioma Cerrado e das dificuldades para encontrar pequi de qualidade fora das regiões produtoras, o arroz com pequi passou também a ser símbolo da resistência ecológica e cultural. Diversas campanhas de valorização, estudo e cultivo do pequi reforçaram seu papel como patrimônio alimentar e incentivaram práticas de extração sustentável do fruto. Desse modo, a história do arroz com pequi é não apenas um testemunho do encontro entre povos e da inventividade diante do ambiente natural, mas também uma expressão de orgulho e memória coletiva dos habitantes do coração do Brasil.
Ingredientes:
- 2 xícaras de arroz branco (preferencialmente arroz agulhinha)
- 6 a 8 frutos de pequi inteiros (bem lavados e descascados superficialmente)
- 1 cebola média picada
- 2 dentes de alho amassados
- 3 colheres (sopa) de gordura de porco ou óleo de urucum (tradicional)
- Sal a gosto
- Água suficiente para cozinhar (aproximadamente 4 xícaras)
- Cheiro-verde picado a gosto
Modo de preparo:
- Em uma panela grossa ou de ferro, aqueça a gordura de porco ou o óleo de urucum.
- Acrescente a cebola e o alho, refogando até dourarem levemente.
- Adicione os frutos de pequi e mexa cuidadosamente, permitindo que soltem sabor e aroma por cerca de 2 a 3 minutos.
- Acrescente o arroz e refogue junto com os pequis, envolvendo bem os grãos na gordura e temperos.
- Tempere com sal e, em seguida, adicione a água, misturando levemente e ajustando se necessário.
- Abaixe o fogo, tampe parcialmente a panela e cozinhe até o arroz ficar macio, absorvendo o sabor do pequi (cerca de 15 a 20 minutos). Não mexa muito para evitar que o arroz fique empapado.
- Ao final, polvilhe cheiro-verde picado e sirva imediatamente, tomando cuidado ao consumir o pequi.
Tempo total: 40 minutos
Referências:
- “Cozinha do Cerrado: receitas e histórias”, Neide Rigo, Editora Senac São Paulo, 2014.
- “História da Alimentação no Brasil”, Luís da Câmara Cascudo, Global Editora, 2011.
- “Pequi, tradição e sabor do Cerrado”, artigo de Camila Cheirosa, Revista Saberes do Cerrado, 2016.
- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Dossiê sobre o Patrimônio Imaterial da Cozinha Goiana, 2018.
- “Pequi: Biologia, Cultura e Aplicação”, Márcio Amaral, Embrapa Cerrados, 2017.
